Stalker Parte 2- Fragmento de diário

 11 de Outubro de 1996

Era um simples almoço em família de segunda, e mesmo assim toda a mesa estava cheia, com um belo feijão feito pelo meu avô, as fortes rúculas colhidas de minha mãe e uma carne vinda do forno, juntamente com as deliciosas batatas doces de minha vó. Todos estávamos felizes, era um momento de união, e não há nada melhor que isso!...

As conversar foram-se desenrolando entre todos, mas eu não prestava muita a atenção no que estas referiam-se, estava mais focado e fascinado em observar o bonito gato preto que caminhava sobre nosso muro de maneira sorrateira. Era de dia, então seu pelo preto destacava-se diante a iluminação calorosa do sol  que o acercava, e isto chamava-me bastante a atenção. Entretanto, o momento de admiração pelo gato terminou quando meu pai perguntou-me sobre um tal amigo amigo da escola, chamado João Alberto, mais conhecido por todos como "Johny ". A pergunta resumia-se em o que ele estava inventando agora, já que seu histórico comparado à sua idade de 16 anos é de assustar até mesmo um fantasma, onde a participação de corridas com o seu próprio opala metálico azul é uma das principais. Respondi que desta vez não vi muito ele caminhando pelos cantos da escola (o que até achei muito estranho) então não possuía nenhuma notícia sobre este. Mas hoje depois do almoço, que seria uma plena segunda feira de aula, procuraria ele para termos uma conversa, e saber ao certo os motivos de seu sumiço durante a semana passada, pois ele sempre está em todos os cantos impressionando todos com seu charme, e de repente parar de fazer suas ações tão tradicionais e famosas é uma situação mais do que peculiar. João Alberto era um menino bem agitado, que quaisquer ação ou situação radical que passasse por sua cabeça, ele já estava prestes a realiza-la na vida real, era simplesmente um faz tudo!

Ao relatar e citar situações da escola, lembrei-me que já estava na hora de ir para ela. Dei tchau à todos e todas da mesa, cumprimentando um por um como meu pai ensinará. Passei rapidamente no banheiro que ficava ao lado do meu quarto, entre a sala e a cozinha, para escovar os dentes e pentear o cabelo com gel para trás ( que na minha percepção, era o melhor jeito de deixar meus cabelos um pouco bonitos). Saindo do banheiro, que durou se quer alguns segundos, foi para parte dos fundos de casa, lá jazia uma bicicleta laranja em meio aos metais enferrujados de meu avô, e então, sem nenhuma delicadeza em pisar nos metais, peguei a bicicleta e levantei-a até o corredor que partia dos fundos e terminava no portão. Andei o mais rápido que podia, passando por atalhos e entre pessoas na calçada. Lembrei-me de Johny, já que a velocidade é o mesmo que respirar para ele. 

Na escola, que tinha cores brancas, azuis e amarelas para todos os cantos, vi um amontoado de alunos, todos prestando a atenção numa coisa que não conseguia ver. Perguntava o que estava acontecendo, mas ninguém respondia, e então busquei adentrar em meio a multidão para saber o motivo da tanta euforia. No meio de tudo aquilo estava o lindíssimo opala metálico azul e ao lado vários outros carros, o que significava que haveria um"pega", que é nada mais e nada menos que uma corrida muito radical. Só que as regiões ao redor da escola não possuíam lugares bons de se andar, e já estava quase no horário da aula e isso assustava-me muito, pois Johny pode ser malandro em tudo, exceto em faltar as aulas. E no exato momento em que pensava isso, o nosso grandioso Johny vinha ao encontro do opala, e todos gritavam seu nome, mesmo ele não referenciando ou agradecendo o tal ato. Decidi, sem pensar muito, barrá-lo e pergunta-lo sobre o que estava acontecendo com ele, e tendo sucesso na ação, percebi bem de perto que em seu rosto saía lagrimas tristes. Johny disse: "Eu vou pra curva do Diabo, em Sobradinho, e vocês?". E então adentrou rapidamente no veículo, esquecendo as respostas de sua recém pergunta, e ligou o seu motor, que resultou num estrondoso som, indo direto para tal estrada que ele falará. Fiquei totalmente paralisado com o que acontecia, mas mal sabia que coisas piores viriam no período da corrida.

Johny com seu opala metálico azul, andava na maior velocidade que o veículo aguentava, passando até dos limites aconselháveis. O sol reluzia fortemente no carro que ele parecia ser uma estrela no meio da rua, e foi aí, como os ciclos das estrelas, que João Alberto fez a curva fatal. Só deu pra ouvir, foi aquela explosão, e os pedaços do Opala azul de Johny pelo chão. Ninguém falava nada, todos estávamos paralisados, e isso durou longas semanas em todos da escola. Só que no dia seguinte do acidente, acho que o momento mas bonito de minha vida, o diretor disse: "o aluno João Aleberto não está mais entre nós. Ele só tinha dezesseis, e que isso sirva de aviso pra vocês!! E então, na saída da aula foi estranho e bonito, todos estávamos cantando baixinho: "Strawberry fields forever, Strawberry fields forever,".

E até hoje quem se lembra, diz que não foi um caminhão, nem a curva fatal e nem a explosão. O Johny era fera demais para vacilar assim, e então dizem que foi tudo por causa de um coração partido, um coração!  

Link da imagem: https://www.google.com/url?sa=i&url=https%3A%2F%2Fpt.wikipedia.org%2Fwiki%2FA_Tempestade_ou_O_Livro_dos_Dias&psig=AOvVaw3NEEh_Jk1T-ZerFBuXIMU2&ust=1599146262890000&source=images&cd=vfe&ved=0CAIQjRxqFwoTCOCj2-vhyusCFQAAAAAdAAAAABAD

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